O desafio de ser professor no Brasil

A celebração do Dia dos Professores propicia a reflexão sobre a profissão. O que é ser professor hoje no Brasil? Qual o perfil dos professores em exercício no País hoje? O que os motivou a optar pela carreira? Quais desafios enfrentam na sua prática diária?

Estudo lançado pela Unesco no dia 6 de outubro durante a Reunião Anual da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Educação (Anped), em Caxambu (MG), buscou respostas para essas e outras questões. Intitulada “Professores do Brasil: Impasses e Desafios“, a pesquisa foi coordenada por Bernardete Gatti.

Um dos dados que mais chamam a atenção diz respeito ao mercado de trabalho para quem segue a carreira. Os cargos para essa função representam o 3º grande grupo de emprego no Brasil. As vagas para área de ensino só são superadas pelas de auxiliar administrativo e as do setor de serviços, onde não se exige formação superior. “A área da construção civil – tão falada como a grande geradora de emprego – sequer aparece entre as primeiras posições”, observa a pesquisadora.

A ampla possibilidade de inserção no mercado de trabalho, combinada à baixa atratividade da remuneração oferecida a esses profissionais, constituem um dos fatores que determinam o perfil de quem opta pela carreira.

“Especialmente os alunos advindos de classes de menor renda optam por fazer um curso de formação de professores, porque é onde eles vêem a oportunidade de emprego. Mas nem sempre com a vocação de ser professor”, acredita.

A maioria dos docentes pertencem às classes D e E, alguns da classe C, e cujos pais cursaram apenas até a 4ª série. Se por um lado o dado aponta o reduzido nível cultural com que chegam à universidade, reforçando a importância da formação inicial, por outro, revela o potencial e a disposição que apresentam: “São classes que estão buscando uma ascensão social via carreira de professor”, analisa Bernardete.

Tal perfil coincide em grande parte com o estudo realizado pelo Instituto de Pesquisas Educacionais do MEC (Inep) que procurou elencar as características dos potenciais candidatos ao magistério a partir de questionário que acompanha o Enem.

Os números confirmam, em primeiro lugar, a reduzida atratividade da carreira: apenas 5,2% dos jovens que realizaram o exame em 2007 responderam que gostariam de ser professores da educação básica. A análise concluiu também que o indivíduo com maior probabilidade de se tornar professor foi aluno de escola pública e tem renda familiar de até dois salários mínimos. O desempenho na prova dos que optaram pela carreira também revela o nível dos candidatos: aqueles com piores notas têm quase três vezes mais chance de ser professor do que aqueles com as melhores notas.

O estudo conclui: “Existem evidências de que a carreira do magistério não está conseguindo atrair os melhores candidatos, o que leva à reflexão de que é pouco provável que o país esteja selecionando os professores entre os melhores alunos”.

De acordo com relatório divulgado pela consultoria McKinsey & Company, em 2007, todos os dez países com as melhores notas no Pisa selecionam os professores dentre os 30% melhores graduandos.

Motivações

Uma outra informação interessante sobre o perfil dos professores no País diz respeito às motivações dos que optam pela carreira. Aproximadamente 50% afirmam que escolheram a docência porque gostam da profissão e querem ser professores.

É caso de Indira Castellanos, graduanda de Pedagogia da Universidade de São Paulo. “Desde o magistério eu já sabia que queria continuar na área da educação, só não sabia em qual modalidade”. Em vias de se formar, a estudante já fez algumas opções dentro da carreira, como a de atuar na rede pública, movida por crenças pessoais.

“Eu desfiz aquela idéia da educação como uma mercadoria. É um serviço, mas um serviço público, como saúde, transporte, que não deve ser pago pela população”, pensa.

Indira trabalhou na rede privada ainda durante o magistério, o que a orientou na sua escolha. “Eu percebi que não era o meu ideal. Nas escolas particulares, tem aquela idéia de “o dono que manda”, não há um uma gestão democrática, nem a mesma diversidade que você encontra na escola pública. Então, eu percebi que não era o meu projeto de vida continuar na escola particular”, relata.

Porém, a opção por vocação não representa a totalidade dos casos. Segundo a pesquisa da Unesco, os outros 50% dão outras razões, como ter um emprego imediato e a ausência de outros cursos na região em que mora. 6% dizem que não gostam.

Para Bernardete, a maneira como as licenciaturas estão estruturadas transforma a carreira em um “plano B” para quem não consegue emprego na área em que se formou, além de não os habilitar para o trabalho em sala de aula. “As disciplinas e licenciaturas específicas (Matemática, Ciências…) não dão uma formação pedagógica. Elas dedicam praticamente só 10% do currículo para as disciplinas pedagógicas. Então, esse licenciando sai absolutamente despreparado para enfrentar uma sala de aula. Ele tem uma formação do conhecimento da área, mas não uma formação para ser professor”, considera.

A pesquisadora também critica os cursos para formação inicial. “Os cursos de Pedagogia não se adaptaram ainda para essa formação. É muito difícil ter pessoas que entendam de práticas de ensino, de alfabetização, de iniciação à matemática… As universidades não estão gabaritadas para isso. A Escola Normal [o magistério] cumpria bem essa função”, explica.

“Precisaríamos de uma faculdade de Educação para formar os professores. E dentro da faculdade de Educação ter as diferenciações. Isso implicaria em uma reformulação estrutural da Pedagogia e das licenciaturas, o que eu acho muito difícil hoje”, lamenta Bernardete.

Teoria e Prática
As deficiências dos currículos dos cursos de Pedagogia – já atestadas em outro estudo da pesquisadora – estão centradas na ênfase na teoria, em detrimento da abordagem de aspectos da prática em sala de aula. “São abstrações que não chegam a iluminar a realidade. Tem que haver um equilíbrio. Porque a prática pela prática é muito limitada. É preciso conhecer ideias que guiem a sua ação. Se o professor não tem formas de pensar educação e ensino, as práticas se tornam mecânicas”.

Uma atividade importante para a aplicação da teoria são os estágios obrigatórios. No entanto, na maneira como estão estruturados hoje – sem controle, desprovidos de um projeto – pouco contribuem para formação dos professores. Indira, que foi representante discente na comissão de estágios na universidade, confirma essa situação: “Os estágios ficam à revelia dos professores. Alguns orientam, coordenam, acompanham, exigem. Mas existem algumas disciplinas nas quais o professor troca o estágio pela entrega de um trabalho. Não há uma diretriz para os estágios”, conta.

A estudante – que atua como professora de educação infantil da rede municipal há um ano e meio – reitera a importância da vivência da experiência de trabalho concomitante aos estudos para sua formação: “Fez muita diferença pra mim na minha evolução profissional”, afirma. “Nunca tive a expectativa de que aprenderia na faculdade o que aprendo na prática. Mas sei que é importante ter um repertório teórico que eu possa consultar quando tiver algum problema na prática, no meu dia-a-dia”, pensa.

** Matéria publicada pelo CENPEC

Publicado em Biblioteca, Concurso Tempos de Escola, Escola

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