O conceito de cidades educadoras em bairros brasileiros

“Ah, a rua! Só falam de tirar as crianças da rua. / Para sempre? Eu sonho com as ruas cheias delas. / É perigosa, dizem: violência, drogas… / E nós adultos, quem nos livrará do perigo urbano? / De quem eram as ruas? Da polícia e dos bandidos? / Vejo por outro ângulo: um dia devolver a rua às crianças ou devolver as crianças às ruas; / ficariam, ambas, muito alegres.”

Nos versos do poema A Rua, o educador brasileiro Paulo Freire parece antever a ideia de cidades educadoras, de uma educação que extrapola os muros da escola. No entanto, o conceito só viria a surgir em 1990, durante o I Congresso Internacional das Cidades Educadoras, ocorrido em Barcelona, na Espanha. A ocasião foi marcada pela elaboração do documento norteador da proposta, conhecido como Carta das Cidades Educadoras.

Para Beatriz Goulart, arquiteta e consultora do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação – FNDE, o movimento que surgiu na Europa é muito institucionalizado em relação ao que ocorre no Brasil. “Aqui, o conceito de cidades educadoras é diferente. Não trabalhamos com especialistas. A própria população é quem vai discutir as necessidades locais”, afirmou.

É justamente esse o princípio utilizado no bairro Cidade Nova Heliópolis, no município de São Paulo (SP). O Centro de Convivência Educativa e Cultural de Heliópolis tem como mola propulsora o desejo de transformar a região em um bairro educador. “A ideia surgiu a partir de dois princípios: a Educação deve ser tarefa de todos os agentes comunitários e a escola tem que lutar pela efetivação dos direitos das pessoas”, explicou o idealizador do projeto e diretor da escola Presidente Campos Sales, Braz Nogueira.

O processo para a implementação do bairro educador foi árduo. “Comecei buscando parceiros para que, juntos, pudéssemos mudar a realidade local. Visitei algumas lideranças, fiz reuniões e abri um curso voltado para a comunidade chamado Educação e Cidadania. Dessa forma, a comunidade foi adquirindo a consciência de que a Educação é de responsabilidade de todos, o que foi fundamental para o andamento dos projetos”, disse.

A partir dessa mobilização, Nogueira demoliu os muros da escola para que a comunidade se apropriasse do espaço. “Tomei como inspiração a Escola da Ponte, do educador José Pacheco, de Portugal, mas com os princípios adaptados à nossa realidade. Em 2005, a metodologia foi aprovada pela gestão pública local e começamos a implementar o projeto a partir da escola Presidente Campos Sales, mas voltado a toda a comunidade. Hoje, promovemos uma série de oficinas fora da escola. Levamos os alunos para as ruas do bairro, para a rádio comunitária Heliópolis, para todos os cantos. Eles são do bairro e o bairro é deles”, declarou.

Em Heliópolis, a proposta de construção de um bairro educador partiu de uma escola. Mas o conceito pode ser implementado pela própria comunidade ou gestão pública local. É o que explica a diretora pedagógica dos projetos da Associação Cidade Escola Aprendiz, Helena Singer. “Os processos de implementação do bairro-escola são muito diversos. Às vezes parte de alguma escola ou da gestão pública que quer um programa diferenciado. Os projetos da Associação ligados ao bairro-escola trabalham de forma articulada com esses dois eixos, porque acreditamos que, para dar certo, as duas partes precisam estar alinhadas”, afirmou.

O Bairro-Escola Rio Vermelho, no munícipio de Salvador (BA), ainda é embrionário, mas usou a estratégia exposta por Singer. “Nós identificamos os parceiros locais que poderiam apoiar a causa – quem executa o projeto no bairro é o Cipó – Comunicação Interativa e o Instituto de Convivência e Pesquisa – Icep. Elegemos um grupo articulador local para desenvolver as ações e estamos dialogando com as escolas para que elas possam abrir as portas para uma educação integral inovadora. Tendo o apoio das duas bases, as ações ganham força para, de fato, mobilizar a população local”, explicou Carla Aragão, gestora de projetos educacionais do Instituto Inspirare, que levou o conceito a Salvador.

Aragão acredita que a escola deve ser o espaço central das ações de um bairro educador. Porém, a instituição de ensino deve entender que outros espaços também são importantes para a construção do conhecimento. “Para que possa haver essa compreensão, promovemos a formação de educadores locais e oferecemos um leque de oficinas e espaços que podem ser trabalhados, para que as escolas tenham ideias e consigam dialogar com os agentes locais”, afirmou.

No bairro Miguel Couto, no município de Nova Iguaçu (RJ), um trabalho semelhante ao desenvolvido no Bairro-Escola Rio Vermelho é realizado há oito anos, por iniciativa da Secretaria Municipal de Cultura. “Quando entrei no projeto, era a primeira vez que um conceito como esse ia ser implementado em um bairro grande. Como a cidade tem uma militância cultural muito forte, a proposta era fazer uma intervenção cultural na região utilizando como norte as cidades educadoras”, explicou o arquiteto e urbanista Carlos Rodrigo Avilez da Silva.

Financiado pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento – BID, o projeto articulou diversas secretarias para promover a união das lideranças locais. “Tudo que o bairro-escola de Nova Iguaçu fez foi para que as crianças tivessem mais conforto e segurança na cidade. Para isso, todas as secretarias tiveram que trabalhar juntas. Afinal, um projeto de cidade educadora deve abranger diversas frentes: saúde, meio ambiente, transporte. Aponto esse aspecto como o principal em termos de proposta urbanística”, ressaltou Silva.

As escolas se destacam como centro das ações, mas utilizam outros espaços urbanos para compor a rede de ensino. “Por exemplo, se a igreja tem um espaço para ceder em um horário para atividades da escola, ela cede; se um morador quer ceder um espaço da casa dele, ele cede. A criança tem um horário normal de ensino e, depois da merenda, realiza as atividades complementares do bairro-escola, que envolvem, principalmente, cultura e esporte”, explicou o arquiteto.

A proposta auxiliou o bairro com melhorias urbanas. “Como as crianças começaram a ocupar as ruas, diversos buracos foram tapados, as calçadas foram arrumadas e a prefeitura ajudou a melhorar a mobilidade urbana. Também começaram a surgir pinturas pelo bairro que ajudaram a criar um ambiente mais lúdico”, completou Silva.

Por Luana Costa / Blog Educação

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