Jayme Paviani, especial para a Revista Onda Jovem
A educação, fenômeno mais abrangente do que ensino e aprendizagem, escola e formação profissional, é por natureza multi e interdisciplinar. Toda formação que envolve conhecimentos, habilidades, competências, valores, condutas, ideias, crenças requer a cooperação e a integração de disciplinas e de práticas escolares. O conceito de educação remete a um sentido de totalidade e, nessa perspectiva, vai além da setorização dos conhecimentos e das ações pedagógicas. Por isso, examinar as relações entre educação e interdisciplinaridade não é nada mais do que explicitar as modalidades de inter-relação que, nos processos educativos e pedagógicos, ocorrem entre as disciplinas e as práticas escolares.
A interdisciplinaridade na pesquisa é natural, pois o cientista resolve um problema científico buscando os conhecimentos e os métodos adequados onde quer que estejam. Já no ensino, a interdisciplinaridade depende da atitude cognitiva do professor e do aluno com a realidade.
Mas o verdadeiro ensino é interdisciplinar. Olga Pombo afirma que a interdisciplinaridade é algo que necessariamente fazemos, ou devemos fazer, e, portanto, não depende apenas de um projeto voluntarista (2004, p. 20). Não se age interdisciplinarmente só por decisão, mas por necessidade que surge do processo educacional. Não fazemos interdisciplinaridade apenas porque usamos o termo, mas porque agimos conforme os padrões que a educação atual exige.
A noção de interdisciplinaridade é recente. Não é um conceito claro, distinto e, por isso, consolidado. Ela nasce como um fenômeno constatado por diversos autores, filósofos e cientistas, a partir da segunda metade do século 20. Nos últimos sessenta anos, realizaram-se congressos e seminários, foram escritos livros e artigos, e também foram realizadas experiências interdisciplinares em diversas partes do mundo, em todos os níveis de ensino: do ensino fundamental até universidades (PAVIANI, 2008).
Entretanto ainda não temos um conceito de interdisciplinaridade acessível e aceito universalmente pela comunidade científica e educacional, sem objeções e críticas. A interdisciplinaridade é apontada, às vezes, apenas como um sintoma escolar das deficiências da educação. O uso polêmico do conceito, todavia, não impede que se reflita sobre a questão para a qual ele aponta.
Artigo publicado na edição 14 da Revista Onda Jovem
* Sobre o autor – Jaime Paviani é professor e coordenador do Programa de Pós-graduação em Educação, Mestrado, da Universidade de Caxias do Sul. É autor dos seguintes livros, entre outros, Problemas de Filosofia da Educação e Interdisciplinaridade: conceitos e distinções.
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