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Especialista da área de educação aponta: “sistema educativo é o sistema genético da sociedade”

2 de novembro de 2010

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“Hoje, no Brasil, há 45 milhões de alunos (do Ensino Infantil ao Ensino Superior). Assim, precisamos nos fazer a seguinte pergunta: esses alunos estão tendo acesso aos melhores conhecimentos, práticas e habilidades que o país precisa durante os 45 minutos em que participam de aula? Se realmente fizéssemos isso, o país mudaria em cinco anos”. BERNARDO-TORO2

Com este questionamento, o filósofo e educador colombiano José Bernardo Toro, consultor da Fundação Avina, convidou todos os participantes presentes em evento realizado pela Fundação Bradesco, em São Paulo, para refletir sobre a educação que o país busca para o século XXI.

Para ele, é preciso olhar os processos educativos como a genética faz, buscando passar o melhor de cada geração para a outra. “A educação precisa identificar os melhores saberes acumulados para transmitir às novas gerações e com qualidade. Senão, a sociedade perde. O ponto inicial de tudo, então, é o país conseguir identificar seus próprios conhecimentos: valores, costumes, história etc. Precisamos parar com a ideia de que somente os países de primeiro mundo produzem conhecimento”.

O ponto de partida, segundo Bernardo Toro, é tornar a educação um projeto de nação e não de ministério. “Nada em educação muda em quatro anos, que é o período de um mandato. Por isso, a educação é um problema de Estado e não de governo. Precisamos ficar atentos porque das decisões tomadas hoje na educação só vamos saber os resultados daqui a 20 anos. Assim, é muito importante analisar muito antes de tomar qualquer decisão”.

Para o filósofo, o Brasil só irá avançar quando o seu sistema educativo mudar. É preciso, portanto, superar os quatro paradigmas que estão ainda vigentes na educação. O primeiro deles é achar normal a existência de dois sistemas educativos: público e privado. “Estamos fazendo da educação um bem corporativo, ou seja, qualidade apenas para poucos. Enquanto isso acontecer, a educação continuará sendo excludente”. Ele acredita que será possível fazer da educação um bem público de qualidade quando o filho de grande empresário estiver estudando na mesma sala do filho de uma pessoa simples que trabalha para ele.

O segundo paradigma ainda existente é definir o educador como docente. Toro ressalta que a profissão do professor não é dar aula, mas sim garantir que os alunos aprendam o que têm que aprender, no momento que tenham que aprender, com solidariedade e felicidade. “Se o professor tiver de dançar, chamar um circo ou dar aula, então o faça. Precisamos parar de culpabilizar os alunos. Se eles não aprendem a responsabilidade é dos adultos que não deram conta de ensinar”.

Por isso, para Bernardo Toro, o papel do educador é essencial para o sucesso na aprendizagem dos alunos, que irá aprender a partir da motivação e do método utilizado. “Assim, se o aluno não aprendeu, é porque faltou algum destes dois itens ou os dois”, acredita.

No Canadá, por exemplo, um educador aprende na faculdade no mínimo 25 métodos de ensino diferentes. No entanto, na América Latina, de acordo com o filósofo, os estudantes da área de educação não aprendem nenhum. Com isso, eles acabam reproduzindo em sala de aula até mesmo aquilo de que não gostavam nos próprios professores.

“Na América Latina há muita gente preparada em Pedagogia, mas pouco em educação. Os educadores precisam entender que eles não trabalham no sistema educativo, mas no projeto de uma ação. Por isso, um pacto educativo entre a sociedade e seus educadores mudará o país. E, se o Brasil fizer, toda a América Latina também o fará”, acredita Toro, lembrando que atualmente há no país mais de 3 milhões de professores, o maior número de profissionais existentes dedicando-se a  uma mesma profissão.

Já o terceiro paradigma que ainda prevalece nos sistemas educativos é o fato deles darem prevalência aos enfoques pedagógicos de natureza frontal e magistral, que só alcançam resultados quando todos os educandos estão no mesmo nível, apresentam as mesmas características, gêneros, conhecimentos etc. E isso não é a realidade nas escolas. A postura agora seria então buscar enfoques pedagógicos baseados em grupos cooperativos, em que as diferenças são vistas como ganho.

O último paradigma, segundo Bernardo Toro, é ver ainda o valor da inteligência como um bem privado, individual e de supremacia sobre os outros, ou seja, a ideia que impera sobre os alunos é de que eles precisam ser muito bons para derrotar os outros. A nova proposta é vislumbrar a inteligência como um bem coletivo, voltado para ajudar.

A escola que buscamos

Diante destes paradigmas, fica um desafio para as escolas, que precisam criar um ambiente estruturado de aprendizagem, no qual os alunos, ao interagir com este contexto, obtenham a experiência, conhecimentos e capacidades para atuarem como cidadãos ativos e produtivos na sociedade.

Bernardo Toro destaca que há uma série de recursos ou variáveis que influenciam o contexto da aprendizagem na escola: espaço físico; tempo; entorno; conteúdos; rotinas e normas; recursos de motivação; sistemas de prêmios e castigos; formas de reconhecimento e recompensa; componente comunitário; tipo e forma de planejamento; gestão da operação; concepção dos diferentes atores (alunos, famílias etc); e opinião pública.

Esses itens são iguais em todas as escolas. A diferença está no ordenamento destas variáveis. Assim, a forma como a escola ordena e escolhe o tempo para cada atividade, por exemplo, mostra ao aluno a importância que aquilo tem ou não. Toro destaca que atividades como teatro, dança e educação física são vistas como extracurriculares, o que não deveria acontecer. “Porque a reunião tem que ser sempre durante a aula de educação física? O corpo é algo essencial e a escola valoriza muito mais apenas o intelecto”, destaca.

Novas competências

De acordo com Bernardo Toro, hoje os alunos precisam desenvolver capacidades e competências mínimas para a participação produtiva no século XXI, o que ele chamou de Códigos da Modernidade.

A primeira delas seria a alta competência para leitura e escrita, algo que ainda está longe de ser realidade em grande parte dos países. De acordo com um levantamento feito pelo Laboratório Latinoamericano de Avaliação da Qualidade da Educação (2º informe), de fevereiro de 2001, mais de 50% dos alunos da América Latina não aprendem a ler e escrever o que deveriam competentemente. Por isso, para Bernardo Toro, torna-se essencial um investimento cada vez maior nos professores responsáveis pelas turmas de primeira e segunda série. “No entanto, estamos fazendo exatamente o contrário”, constata.

Outra competência que ainda não é possível observar nos alunos é em relação aos cálculos matemáticos e resolução de problemas. De acordo com o mesmo levantamento, mais de 60% dos estudantes não são capazes de resolver problemas de operações matemáticas.

Aparecem ainda como necessárias as altas competências em expressão escrita, que seria a habilidade em escrever, analisar e comparar e expressar os próprios pensamentos, assim como a capacidade de analisar e criticar os meios de comunicação de massa, a fim de entender como se produzem os meios, para desmistificá-los, e também aprender a usá-los. Para isso, uma proposta é a criação de clubes de produção dentro das escolas.

Outra competência a ser desenvolvida junto aos alunos é a capacidade de criticar o entorno social, o que só será possível com formação política em democracia e cidadania, gerando conhecimento das instituições e aprendendo a demandar os serviços institucionais.

Segundo Bernardo Toro, uma competência essencial e que deve ser muito estimulada é a capacidade de planejar e trabalhar em grupo. Para isso, ele acredita que as escolas precisam ensinar as crianças, desde muito pequenas, a criar múltiplas organizações, a fim de que saibam se associar e organizar. “Hoje, as pessoas poderosas são aquelas que participam e são membros de muitas organizações (culturais, religiosas, econômicas etc). Isso porque, quando se movem, movem muitos outros juntos”, aponta o educador.

E, por fim, a capacidade de localizar, acessar e usar melhor a informação acumulada. “É preciso ser crítico para selecionar as informações. Hoje, não é mais importante o conhecimento individual. Os grandes líderes são justamente aqueles que sabem perguntar, pedir ajuda e criar vínculos emocionais, sociais e profissionais sólidos”.

A educação do século XXI

Neste cenário proposto por Bernardo Toro, a educação para o século XXI, deve estar fundamentada nas seguintes características e modelos: identidades múltiplas; diversidade cultural; singularidade psicológica e genética de cada aluno; aprendizagens múltiplas e divergentes; metas de aprendizagem próprias para cada; currículo comum mínimo e com muitas opções e métodos de trabalho em grupo; e portfólio de projetos.

Tudo isso, visando preparar as crianças e jovens para o novo paradigma ético da civilização, que é o saber cuidar: de si mesmo (corpo, espírito e intelecto), dos outros (próximos, distantes e estranhos) e da Terra. Além disso, aprender a estabelecer transações de ganhar-ganhar e não ganhar-perder, algo que foi sempre vigente na sociedade moderna. Uma transação ganha-ganha é a que contribui para possibilitar a dignidade humana, ou seja, os Direitos Humanos. E, por fim, saber conversar, baseado no diálogo e na escuta.

Por Daniele Próspero / Blog Educação

Crédito das fotos: Renata Ursaia e Blog muypatagonia.com

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  1. Comentários
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  3. Vários estudiosos e teóricos da Educação, não é de hoje, estão sinalizando para a necessidade de mudança no panorama educacional. Achei este texto ótimo, evidenciando os pontos nevráugicos da Educação. As instituições de ensino superior precisam rever seus programas, inovar seus conteúdos e metodologias, dando oportunidade ao aluno em pesquisar e construir conhecimentos que tragam novas perspectivas didáticas e metodológica de ensino.

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