Igor e Rhaíssa são jovens com anseios e conflitos típicos da adolescência. Igor é carioca, tem 18 anos, toca numa banda de pagode e, nas horas vagas, gosta de ficar na internet ou vendo televisão em casa. Rhaíssa tem 16 anos, mora em São Paulo, é viciada em internet e adora sair com os amigos. O que ambos têm em comum? Os dois querem cursar o ensino superior – e deverão, desta forma, passar seus pais em grau de escolaridade.

Este é o retrato do novo Brasil. Hoje, quase 70% dos jovens da classe C já passaram a ter um nível escolar mais alto que o familiar. Os dados são de uma pesquisa da Data Popular, que considerou números da Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios), levantados pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Os dados mostram que o perfil de educação e emprego mudou em famílias emergentes.
O ciclo de desenvolvimento que envolveu o Brasil na última década abriu caminhos inéditos para uma classe social que, antes, vivia às margens das ambições socioculturais. Esse movimento impactou o mercado, já que os hábitos de consumo mudaram e transformou também aspectos educacionais e culturais.
Um dos retratos mais representativos desta mudança é a nova juventude brasileira. O jovem tem estudado mais do que os que viviam nas grandes capitais há 30 anos. Os adolescentes – em especial os da classe C – têm, aos poucos, entendido que o diploma do ensino médio é um passaporte para uma boa posição no mercado de trabalho. E os pais, que muitas vezes tiveram que abandonar os estudos para trabalhar, investem suas fichas na educação dos filhos para dar a eles uma melhor expectativa de futuro.
Este é o caso de Rhaíssa Freitas. A adolescente paulistana já sabe o que pretende fazer quando terminar o ensino médio: quer cursar a faculdade de psicologia. “Acho que estudar é muito importante para crescermos na vida. É base para o sucesso. Por isso, quero fazer vestibular e, no futuro, trabalhar como psicóloga na área criminal”, explica, de forma decidida.
Os pais de Rhaíssa não tiveram a mesma oportunidade. Ambos precisaram parar os estudos no ensino médio para começar uma profissão – a mãe da adolescente trabalha na linha de produção de uma fábrica de dermocosméticos e o pai é vendedor em uma loja de eletrodomésticos.

É considerada uma pessoa da Classe C aquela que faz parte de uma família com renda domiciliar entre R$1.115,00 e R$ 4.807,00 (Fonte: FGV). A pesquisa “A nova Classe Média” aponta que o número de famílias da classe C subiu de 42,26% para 51,89% entre 2004 e 2008.
Ter uma vida tranquila, com conforto e que traga realizações profissionais parece mesmo ser uma preocupação do jovem atual. Igor Pitta, de 18 anos, mora no bairro de Madureira no Rio de Janeiro e já tem planos para o futuro. “Acabei o ensino médio e agora estou pensando em fazer um curso técnico na área petroleira. Além disso, quero cursar direito na universidade.”
As conquistas do jovem, em termos de escolaridade, devem superar a dos pais, que não puderam cursar o ensino superior. Ele é mais um representante dessa geração retratada na pesquisa sobre o nível de escolaridade da juventude brasileira.
Ainda segundo a pesquisa, a maior escolaridade dos jovens deve mudar os tipos de trabalho procurados no mercado. Entre os pais pesquisados, as profissões mais populares são: profissionais domésticos, vendedores de lojas ou mercados, trabalhadores da construção civil, cozinheiros e zeladores. Já, entre os jovens, as profissões mais procuradas são vendedores, auxiliares administrativos, operadores de telemarketing, caixas e recepcionistas.
Apoio da família faz a diferença
A participação da família na vida escolar dos jovens parece ser fator determinante. Pais que entendem o valor da educação tendem a incentivar os filhos a prosseguir nos estudos. Esse é o caso de Ivoneide Rocha, empregada doméstica, mãe do adolescente Júlio Cesar, de 15 anos. O marido, que trabalha como segurança, também é entusiasta da educação do filho.
“Estudar é muito importante para o futuro dos jovens. Quero proporcionar para o meu filho as coisas que eu não tive na vida”, comenta Ivoneide. O adolescente acaba de entrar no ensino médio e já dá sinais de que deseja atuar no ramo da informática.
O jovem passa horas no computador e ajuda vizinhos na instalação e correção de pequenos problemas em computadores. “Ele já quer entrar em algum programa de aprendizagem neste ano”, explica a mãe. “Dessa forma, ele conseguirá trabalhar sem ter que largar os estudos.”
Saiba mais
>> Leia o suplemento com a pesquisa do Instituto Data Popular
>> Confira a pesquisa “A Nova Classe Média”, do economista Marcelo Neri, da Fundação Getúlio Vargas
Por Rodrigo Bueno / Blog Educação
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